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| Webzine CTLX (Arquivo) |
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| THE EXORCIST |
| de William Friedkin - EUA - 1973 |
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O Cinema com o Diabo Pode Esperar
É divertido ver filmes com o Diabo quando não se acredita nele. Não é tão divertido ver filmes com o Diabo quando se acredita nele.
Eu assisti a "O Exorcista" já nos meus vintes numa sessão das onze e tal da manhã. Levei comigo dois amigos e ficámos com muito dia pela frente para nos fazer descomprimir da experiência. Sensatez.
O cinema de terror resulta para um crente, como é o meu caso, na medida em que mexe em elementos simbólicos que nos são domésticos. Morte, eternidade, o Bem e o Mal, entre outras esquinas existenciais. Enquanto o jogo é sobretudo figurativo não há problema de maior. Fascínio adolescente e cheap thrills. A maturidade não é para aqui chamada. Felizmente. Quando entra em causa a categoria teológica propriamente dita, pessoalizada na personagem de Lúcifer, o fenómeno muda. Torna-se impossível não conferir às imagens alguma qualidade doutrinária.
É certo que o filme de Friedkin fracassaria no campo da sustentabilidade bíblica (a superstição, atalho menor do pensamento religioso, é fonte inesgotável para o cinema de terror). Uma mente protestante desvaloriza a tralha sacramental da frieza técnica dos ritos. Mas não é de apologética cristã que aqui falamos. É da existência concreta do actor maior de "O Exorcista".
Para quem não crê no Diabo o filme de William Friedkin pode ser uma hábil construção acerca dos mitos e narrativas humanas sobre o problema moral. Objecto estético coerente e estimulante. Nada a opor.
Esta assistência deitar-se-á à noite sem problemas de maior. Contemplará a humanidade no prefácio do seu sono com bonomia e paz intelectual.
Não o crente. O crente, dependendo de muitas factores subjectivos como por exemplo a cobardia pessoal, recolherá ao leito procrastinando o apagar do interruptor. Inventará uma desculpa para se obrigar a ler na inconfessada esperança de adormecer sobre o volume. Terá escolhido literatura leve e progressista. Uma coisinha de Boaventura Sousa Santos. Mas o crente, que sabe que o Diabo não é invenção de William Friedkin, tem medo. Do escuro, do sono, do dia seguinte, da vida. O crente até pode acordar decidido a nunca mais ver cinema. O crente pode extirpar a cinefilia do seu deleite estético porque a menina Blair decidiu estragar-lhe o repouso com o velho número do contorcionismo nas escadas. O crente não é tributário fiável à sétima arte.
Já tenho visto o DVD do Director's Cut a bom preço. Mas nada. Zelo pelas minhas boas noites. É certo que a partir do momento em que me casei passei a ter o mais eficaz instrumento de integridade filosófica: dormir acompanhado. Não ouso, todavia, arriscar. Só eu sei o que sucedâneos manhosos da obra de Friedkin já foram capazes. Céus. Até a Emily Rose me arrepiou o pescoço. Tenho filhos para criar e uma imagem parental a defender.
O cinema com o Diabo pode esperar. |
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